{"id":2029,"date":"2020-05-23T11:00:00","date_gmt":"2020-05-23T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/covid360.unl.pt\/?p=2029"},"modified":"2020-05-25T12:06:16","modified_gmt":"2020-05-25T12:06:16","slug":"ousemos-pensar-a-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/covid360.unl.pt\/?p=2029","title":{"rendered":"Ousemos pensar a \u00c9tica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>16 mai 2020<\/em><\/p>\n\n\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-635 alignleft\" src=\"https:\/\/covid360.unl.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Fragata-300x300.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/covid360.unl.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Fragata-300x300.png 300w, https:\/\/covid360.unl.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Fragata-150x150.png 150w, https:\/\/covid360.unl.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Fragata-768x768.png 768w, https:\/\/covid360.unl.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Fragata.png 800w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><strong><em>Jos\u00e9 Fragata<br><\/em><\/strong><span style=\"color: #000000;\"><em>Cirurgi\u00e3o cardiotor\u00e1cico<br><\/em><em>Vice-Reitor da Universidade NOVA de Lisboa<\/em><\/span><\/p>\n\n\n<p>A crise pand\u00e9mica causou disrup\u00e7\u00f5es profundas na sociedade. Sacrificou j\u00e1 extensamente a sa\u00fade p\u00fablica, mudou estilos de vida e afeta as economias locais e globais. Mas tamb\u00e9m comprometeu direitos e garantias individuais, mesmo aqueles que pens\u00e1vamos intoc\u00e1veis, como a liberdade de nos movermos, a autonomia de determinarmos o nosso dia-a-dia ou o direito ao trabalho e \u00e0 seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Mas esta pandemia, tal como outras no passado, tamb\u00e9m tocou sentimentos humanos profundos, como a f\u00e9 e o medo, enquanto veio confrontar-nos com dilemas de moralidade dif\u00edceis de dirimir. Falo do confronto entre o interesse individual e o bem comum. Um conflito latente que tem evolu\u00eddo por fases, tal como a COVID-19, e que, agora, se torna inevit\u00e1vel.<br><br>Quando a pandemia se declarou, a primeira e mais leg\u00edtima das prioridades foi a defesa da sa\u00fade individual e o limitar da propaga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, atrav\u00e9s da ado\u00e7\u00e3o de medidas que procuraram, e lograram, poupar vidas, limitando o impacto epidemiol\u00f3gico. Medidas totalmente justificadas por n\u00e3o haver valor maior do que o da vida humana, sendo cada vida pessoal insubstitu\u00edvel e central ao universo bio\u00e9tico. Nalguns casos, como em Espanha e em It\u00e1lia, o afluxo esmagador de doentes fez colapsar a capacidade instalada de cuidados intensivos e tornaria, em dias ou horas, imposs\u00edvel tratar todos. Foi preciso fazer escolhas, as mais penosas, sobre quem tratar &#8211; por ter maior probabilidade de sobreviver &#8211; e sobre quem n\u00e3o tratar e, assim, deixar morrer. Estas escolhas foram moralmente dif\u00edceis, mas n\u00e3o ter\u00e3o sido moralmente erradas. Foram necess\u00e1rias com base na dimens\u00e3o da \u00c9tica do Utilitarismo.<br><br>Introduzida no s\u00e9culo XVIII por Jeremy Bentham, para responder \u00e0 necessidade de tratar com base na igualdade da condi\u00e7\u00e3o humana e n\u00e3o num qualquer status aristocr\u00e1tico individual ou moral e que se generalizaria na defesa do \u201cbem para a maioria\u201d. Foi exatamente com base na defesa do \u201cbem da maioria\u201d que, administrando bens escassos, os meus colegas tiveram de decidir, como em qualquer cen\u00e1rio de guerra, quem tratar e quem n\u00e3o tratar. Ao longo de muitos anos, tenho feito escolhas dif\u00edceis sobre doentes, tipicamente quando, em presen\u00e7a de um \u00f3rg\u00e3o oferecido para transplante, h\u00e1 que selecionar um dador entre v\u00e1rios, condenando potencialmente outros. S\u00e3o escolhas de um enorme melindre e desassossego para a consci\u00eancia moral, mas necess\u00e1rias, e s\u00f3 poss\u00edveis, quando assentes numa clara l\u00f3gica de razoabilidade, envolvidas na mais profunda humanidade e compaix\u00e3o.<br><br>Nesta segunda fase, a da iminente reabertura, voltam a levantar-se dimens\u00f5es \u00e9ticas que muito poucos ousam abordar, por serem inc\u00f3modas, por parecerem cinzentas na cor e por as sentirmos amargas no travo: o conflito real entre a necessidade imperiosa de retomar as v\u00e1rias dimens\u00f5es da vida social e econ\u00f3mica e o risco acrescido de mortalidade, que, podendo atingir todos, atingir\u00e1 ironicamente os mais vulner\u00e1veis, os idosos, os doentes e os socialmente desprotegidos.<br><br>Sabemos que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel perpetuar o encerramento da sociedade, sob risco de infligirmos danos irrepar\u00e1veis no tecido social e econ\u00f3mico do pa\u00eds, o que seria um modelo figurado, mas cruelmente real, de morte coletiva.<br><br>Durante a crise econ\u00f3mica mais recente, as taxas de suic\u00eddios, de neoplasias n\u00e3o tratadas ou de transplantes n\u00e3o realizados escalaram em linha com as fal\u00eancias pessoais e corporativas. E essas tamb\u00e9m foram mortes.<br><br>Poderemos reabrir a sociedade, mesmo sabendo que, para tal, iremos comprometer alguma seguran\u00e7a, traduzida, provavelmente, em mais infe\u00e7\u00f5es e mortes? Esta \u00e9 a pergunta que encontra resposta na \u00e9tica do utilitarismo, em nome da qual sacrificaremos alguns, esperemos que n\u00e3o muitos, para salvar a maioria. A \u00e9tica do utilitarismo n\u00e3o \u00e9 necessariamente m\u00e1, mas tem de ser bem justificada e ainda melhor acautelada, pela aus\u00eancia inexor\u00e1vel de uma alternativa e pelo minimizar imperioso de riscos desnecess\u00e1rios, mantendo-se escrupulosamente as medidas de precau\u00e7\u00e3o.<br><br>\u00c9 certo que teremos de continuar a abdicar, individualmente e por enquanto, de alguma da nossa t\u00e3o querida autonomia, mantendo uma guarda rigorosa. Mas essa \u00e9, afinal, uma responsabilidade de todos: sacrificarmo-nos individualmente, mantendo a guarda e reduzindo os riscos, para permitir uma outra sobreviv\u00eancia, n\u00e3o menos importante, a do pa\u00eds social e econ\u00f3mico. Ou seja, a sobreviv\u00eancia de todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">*Artigo publicado no <a href=\"https:\/\/leitor.expresso.pt\/semanario\/semanario2481-2\/html\/_index?p=\/semanario\/semanario2481-2\/html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Expresso (opens in a new tab)\">Expresso<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>16 mai 2020 Jos\u00e9 FragataCirurgi\u00e3o cardiotor\u00e1cicoVice-Reitor da Universidade NOVA de Lisboa A crise pand\u00e9mica causou disrup\u00e7\u00f5es profundas na sociedade. Sacrificou j\u00e1 extensamente a sa\u00fade p\u00fablica, mudou estilos de vida e afeta as economias locais e globais. 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