{"id":2036,"date":"2020-05-25T00:05:00","date_gmt":"2020-05-25T00:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/covid360.unl.pt\/?p=2036"},"modified":"2020-05-25T12:05:39","modified_gmt":"2020-05-25T12:05:39","slug":"pandemia-modelos-e-decisoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/covid360.unl.pt\/?p=2036","title":{"rendered":"Pandemia, modelos e decis\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>25 mai 2020<\/em><\/p>\n\n\n<p><strong><em><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2038 alignleft\" src=\"https:\/\/covid360.unl.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/ferreiramachado-300x298.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/covid360.unl.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/ferreiramachado-300x298.png 300w, https:\/\/covid360.unl.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/ferreiramachado-150x150.png 150w, https:\/\/covid360.unl.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/ferreiramachado.png 597w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/>Jos\u00e9 Ferreira Machado<\/em><\/strong><br><span style=\"color: #000000;\"><em>Professor de Economia<br>Vice-Reitor da Universidade NOVA de Lisboa<br><\/em><\/span><\/p>\n\n\n<p>Medidas com elevados custos s\u00e3o tomadas por detr\u00e1s de um cerrado nevoeiro de ignor\u00e2ncia e incerteza. Contra esta incerteza s\u00f3 existe um rem\u00e9dio: melhores modelos, mais informa\u00e7\u00e3o. E mais transpar\u00eancia.<br><br>Quem com eles nunca trabalhou, tende a assumir perante os modelos matem\u00e1ticos uma de duas atitudes: indiferen\u00e7a ou aceita\u00e7\u00e3o beata. A primeira ignora a sua utilidade; a segunda as suas limita\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Os melhores modelos matem\u00e1ticos (melhores no sentido de mais \u00fateis para compreender e prever aspetos n\u00e3o vis\u00edveis da natureza, do comportamento humano e da sociedade) caminham sempre num agu\u00e7ad\u00edssimo fio-de-navalha entre a simplicidade e o simplismo. Para serem manej\u00e1veis, os modelos ignoram deliberadamente muitos aspetos da realidade que o estudioso considera acess\u00f3rios para o fen\u00f3meno em an\u00e1lise. Mas, faz\u00ea-lo, significa tomar como boas muitas hip\u00f3teses sobre o modo como o objeto do estudo se comporta. Se esses modelos algum dia chegarem ao conhecimento do grande p\u00fablico e tiverem relev\u00e2ncia para a tomada de decis\u00f5es, apenas as suas conclus\u00f5es ou predi\u00e7\u00f5es ser\u00e3o consideradas, raramente as hip\u00f3teses simplificadoras que as permitiram. Esquecemos, por comodidade ou por ignor\u00e2ncia, que \u201cquando entra lixo, sai lixo\u201d.<br><br>V\u00eam estas reflex\u00f5es a prop\u00f3sito dos in\u00fameros estudos epidemiol\u00f3gicos que ganharam popularidade na crise pand\u00e9mica. Quotidianamente ouvimos e lemos termos arcanos como curvas de incid\u00eancia, preval\u00eancia, CFR, IRF, taxa b\u00e1sica de propaga\u00e7\u00e3o (R0), taxa efetiva de propaga\u00e7\u00e3o, imunidade de grupo, entre muitos outros.<br><br>Desejo fixar-me num desses conceitos, o chamado limiar da \u201cimunidade de grupo\u201d, ou seja, a propor\u00e7\u00e3o m\u00ednima de da popula\u00e7\u00e3o que necessita de adquirir imunidade (por cont\u00e1gio ou por vacina\u00e7\u00e3o) para que incid\u00eancia da infe\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus decres\u00e7a e a pandemia so\u00e7obre naturalmente. Esse limiar tem uma rela\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica simples com o famoso R0 (o n\u00famero m\u00e9dio de novas infe\u00e7\u00f5es por cada indiv\u00edduo infetado quando toda a popula\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 suscet\u00edvel \u00e0 infe\u00e7\u00e3o): 1-1\/R0. Assim se o R0 para a Covid-19 for aproximadamente 3, o limiar de imunidade de grupo estar\u00e1 pr\u00f3ximo dos 66%. Este \u00e9 um valor enorm\u00edssimo: com uma a taxa de mortalidade do v\u00edrus entre os infetados que dever\u00e1 n\u00e3o exceder os 0,5% isto levaria a prever a morte de 34 mil pessoas se a epidemia n\u00e3o fosse contida. Um n\u00famero enorme que excede, por exemplo, os \u00f3bitos anuais por doen\u00e7as do aparelho circulat\u00f3rio. Um tal cen\u00e1rio justificaria, por si s\u00f3, um plano agressivo de conten\u00e7\u00e3o da propaga\u00e7\u00e3o.<br><br>Mas consideremos, agora, para al\u00e9m das conclus\u00f5es as hip\u00f3teses onde s\u00e3o baseadas. A rela\u00e7\u00e3o simples acima apresentada entre o valor de R0 e o limiar de imuniza\u00e7\u00e3o \u00e9, na realidade um teorema demonstrado nos anos 70 do s\u00e9culo passado sob um conjunto de hip\u00f3teses muito restritivas designadamente, que a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 identicamente suscet\u00edvel \u00e0 doen\u00e7a.<br><br>A Professora Gabriela Gomes da Escola de Medicina Tropical de Liverpool chamou-nos a aten\u00e7\u00e3o para este facto numa <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"importante entrevista ao Observador (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/matematica-especialista-em-epidemiologia-podemos-ter-mais-4-ondinhas-mas-bastar-10-a-15-para-a-imunidade-de-grupo-ate-ao-inverno\/\" target=\"_blank\">importante entrevista ao Observador<\/a>, mas que me parece ter passado despercebida aos decisores de sa\u00fade p\u00fablica. A Professora e os seus colegas <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"mostraram (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/www.medrxiv.org\/content\/10.1101\/2020.04.27.20081893v3\" target=\"_blank\">mostraram<\/a> que, se considerarmos que alguns de n\u00f3s s\u00e3o mais d\u00e9beis e, portanto, mais suscet\u00edveis, ou est\u00e3o mais expostos (por exemplo por estarem em lares ou em atividades menos perme\u00e1veis ao teletrabalho), ent\u00e3o esse limiar de imunidade de grupo ao SARS-CoV-2 pode ser alcan\u00e7ado com apenas 10 a 20% da popula\u00e7\u00e3o infetada. Significa isto que dever\u00edamos esperar entre 5 mil e 10 mil mortes, um n\u00famero sempre grande, mas que, na pior das hip\u00f3teses, \u00e9 cerca de metade dos \u00f3bitos anuais por cancro. Neste cen\u00e1rio, dificilmente se justificaria, passada a fase \u201cexponencial\u201d pandemia, uma pol\u00edtica de confinamento t\u00e3o agressiva e com tantos custos econ\u00f3micos e sociais como a adoptada. Tomando como refer\u00eancia o \u201cvalor m\u00e9dio da vida\u201d de 50 mil euros usado pelo STJ, o \u201cvalor\u201d destas 10 mil vidas perdidas seriam 500 mil euros, 1\/12 do custo em Rendimento Nacional de um m\u00eas de confinamento.<br><br>O prop\u00f3sito destas notas n\u00e3o \u00e9 defender os resultados mais otimistas (eles tamb\u00e9m obtidos sob diversas hip\u00f3teses simplificadores). Antes, chamar a aten\u00e7\u00e3o para como medidas com elevados custos s\u00e3o tomadas por detr\u00e1s de um cerrado nevoeiro de ignor\u00e2ncia e incerteza. Tomando os casos extremos dos modelos referidos, o SARS-CoV-2 causaria (\u201cnaturalmente\u201d) entre 5 mil e 34 mil mortes. Um intervalo demasiado amplo para ser \u00fatil! Contra esta incerteza s\u00f3 existe um rem\u00e9dio: melhores modelos e mais informa\u00e7\u00e3o. Informa\u00e7\u00e3o transparente e totalmente aberta sobre os modelos usados na tomada de decis\u00e3o e obten\u00e7\u00e3o de mais e melhores dados estat\u00edsticos sobre o estado da pandemia. N\u00e3o deixa de ser curioso que, tanto tempo decorrido, n\u00e3o exista (ao que sei) um plano sistem\u00e1tico de testes serol\u00f3gicos de base amostral. Neste momento, a ferramenta que mais precisamos para gerir a crise pand\u00e9mica n\u00e3o \u00e9 cl\u00ednica, mas sim estat\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">*Artigo publicado no <a href=\"https:\/\/observador.pt\/opiniao\/pandemia-modelos-e-decisoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Observador (opens in a new tab)\">Observador<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>25 mai 2020 Jos\u00e9 Ferreira MachadoProfessor de EconomiaVice-Reitor da Universidade NOVA de Lisboa Medidas com elevados custos s\u00e3o tomadas por detr\u00e1s de um cerrado nevoeiro de ignor\u00e2ncia e incerteza. Contra esta incerteza s\u00f3 existe um rem\u00e9dio: melhores modelos, mais informa\u00e7\u00e3o. E mais transpar\u00eancia. 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