Universidades virais

14 abr 2020

João Amaro de Matos
Vice-Reitor da Universidade NOVA de Lisboa

As implicações da COVID-19 nas Universidades são grandes, pelas melhores e piores razões. Fechámos, surpresos com a nossa capacidade de adaptação e aprendemos com o processo; gerimos incertezas para o final do ano, evitando passagens administrativas e mantendo a integridade e credibilidade do sistema; tentamos prevenir o impacto económico anunciado, esperando que possa ser um espaço de oportunidades.

No passado, o Governo tentou compensar as restrições orçamentais que o Ensino Superior sofreu durante a chamada austeridade através do recrutamento de alunos de primeiro ciclo fora da Europa, com propinas competitivas. Essa oportunidade foi aproveitada, de acordo com as possibilidades e capacidades das diferentes instituições. Para muitas, foi o cerne da estratégia de desenvolvimento internacional nos últimos anos: recrutar alunos no Brasil que falassem português e pagassem propinas.

O contexto atual permite antever um rápido empobrecimento dos futuros Orçamentos do Estado. A vontade política de baixar as propinas não melhora a perspetiva sobre a capacidade governamental de financiar adequadamente as Universidades. Os estudantes internacionais dificilmente vão ajudar: primeiro, a crise vai afetar também os mercados emissores; segundo, a apetência para viajar e partilhar experiências culturais vai reduzir-se.

De facto, esta pandemia foi apresentada por uns e percebida por outros como decorrente do processo de globalização, acentuada pela facilidade com que se viaja, a diversidade de destinos e o intercâmbio frequente. Nada mais instintivo do que querer inverter esse processo. Mas será que a internacionalização prejudicou ou ajudou as Universidades?

No plano das relações internacionais, tivemos de lidar com alunos nossos fora do país, cuidar de alunos estrangeiros, decidir sobre projetos financiados pela Comissão Europeia com prazos e financiamentos em risco ou cancelar grandes encontros internacionais. Tudo isto foi parte do pesadelo logístico das Universidades. Mas a solução também veio dos parceiros e das redes, que partilharam as melhores práticas, ajudando a convergir em políticas e critérios. Aqui, as instituições internacionais foram valiosas.

As Universidades revelaram-se curadoras de competência e conhecimento, nos quais a sociedade buscou conforto. As instituições da área da saúde, em primeira linha, mas também as de outras áreas, foram fontes de informação cuidada e os seus investigadores porta-vozes credíveis. A credibilidade vem da colaboração e comparação com as redes internacionais de investigação, da coordenação de atividades entre os laboratórios de diversas partes do mundo. Mais do que nunca, a colaboração e o diálogo internacional entre pares qualificados acrescentam um valor incalculável.

E junta-se a isso a nova linguagem das teleconferências. Já existia, é certo, mas agora tivemos os motivos certos para superar barreiras e preconceitos. Aproximou investigadores para além de emails. Docentes forçam-se a renovar a sua linguagem e a adaptarem-se à tecnologia. Esta súbita descoberta diminui distâncias na partilha de conhecimento, seja na investigação, seja no ensino, facilitando o desenvolvimento internacional.

A crise mostrou que as parcerias permitem reforçar a reputação das Universidades. E sobretudo se baseadas na partilha daquilo que as Universidades têm de melhor: servir a sociedade.

* Artigo publicado no Expresso